Por Raquel Guirra | Colunista – Brasil em Debate
A classificação da Argentina para a final da Copa do Mundo de 2026, após vencer a Inglaterra por 2 a 1 de virada, não representa apenas mais uma vitória esportiva. O resultado escancara a diferença entre duas seleções sul-americanas que, historicamente, disputam protagonismo no futebol mundial, mas que hoje vivem realidades completamente distintas.
Enquanto os argentinos demonstram organização, identidade, liderança e espírito coletivo, o Brasil segue em busca de uma seleção que ainda não encontrou sua personalidade dentro de campo.
A vitória da Argentina foi construída com os ingredientes que costumam definir grandes campeões: equilíbrio emocional, comprometimento coletivo e confiança no trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos. Mesmo quando esteve atrás no placar, a equipe manteve sua proposta de jogo, acreditou até o fim e foi recompensada com a virada.
Mais do que talento individual, venceu o projeto.
E talvez seja justamente isso que mais falta ao futebol brasileiro.
A seleção brasileira perdeu sua identidade
Durante décadas, bastava ouvir o nome “Brasil” para que o mundo lembrasse do futebol bonito, da criatividade e da confiança de uma equipe acostumada a decidir grandes campeonatos.
Hoje, a sensação é diferente.
Falta identidade.
Falta continuidade.
Falta liderança.
A Seleção parece trocar de comando, de ideias e de estilo a cada novo ciclo, sem conseguir construir um projeto sólido que una comissão técnica, jogadores e torcida em torno de um mesmo objetivo.
Enquanto isso, a Argentina colhe os frutos de um trabalho que foi mantido mesmo após derrotas e críticas.
A força de uma liderança
Nenhuma grande equipe conquista resultados expressivos sem referências dentro de campo.
A Argentina tem Lionel Messi.
Independentemente da idade, ele continua sendo o principal líder técnico e emocional da equipe. Sua presença inspira confiança. Os companheiros acreditam até o último minuto porque sabem quem conduz aquele grupo.
No Brasil, essa figura existe?
Durante muitos anos, Neymar Jr. assumiu esse papel.
É inegável que ele está entre os maiores jogadores da história recente do futebol brasileiro e um dos atletas mais reconhecidos do futebol mundial. Ao longo da carreira, acumulou títulos, recordes e protagonismo em grandes clubes europeus.
Entretanto, curiosamente, o jogador que recebeu admiração em praticamente todos os países por onde passou frequentemente foi alvo de críticas muito mais severas dentro do próprio Brasil.
Isso não significa que Neymar esteja acima de qualquer avaliação ou que não tenha cometido erros ao longo da carreira. Como qualquer grande atleta, suas escolhas, atitudes e atuações podem ser debatidas.
Mas transformar Neymar no único responsável pelas frustrações da Seleção Brasileira é ignorar um problema muito maior. O futebol é coletivo, e nenhum jogador, por mais talentoso que seja, consegue conquistar grandes títulos sozinho.
A grande questão não é apenas a ausência de Neymar em determinados momentos, mas a dificuldade do Brasil em construir uma equipe capaz de dividir responsabilidades e formar novas lideranças.
A frase registrada nos Evangelhos permanece atual:
“Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa.” (Marcos 6:4).
A reflexão não pretende transformar Neymar em uma figura incontestável, mas lembrar como, em diferentes áreas, nem sempre valorizamos aqueles que conquistam reconhecimento internacional.
O eterno “e se?”
Após mais uma eliminação brasileira, surgem inevitavelmente as perguntas.
E se Neymar tivesse tido mais minutos em campo?
E se estivesse em melhores condições físicas?
E se tivesse participado mais do ciclo da Seleção?
E se…
Mas nenhuma dessas perguntas muda a realidade.
O futebol não é decidido pelas hipóteses.
É decidido dentro das quatro linhas.
Mesmo que Neymar tivesse uma participação maior, uma pergunta continuaria sem resposta: a Seleção Brasileira possui hoje uma equipe preparada para que a responsabilidade não esteja concentrada em apenas um jogador?
Porque grandes seleções não dependem apenas de um craque. Elas possuem líderes, mas também possuem um grupo capaz de caminhar junto.
A resposta ainda parece incerta.
A Argentina mostrou que ninguém vence sozinho
Talvez o maior ensinamento da semifinal não tenha sido a atuação de Messi, de Lautaro Martínez ou de Enzo Fernández.
Foi o comprometimento coletivo.
Cada jogador argentino parecia disposto a correr um metro a mais pelo companheiro.
Cada substituição manteve o mesmo nível de intensidade.
Cada atleta entendia exatamente o papel que precisava cumprir.
Essa talvez seja a maior diferença entre uma equipe que chega novamente à final da Copa do Mundo e outra que ainda tenta reencontrar o caminho das grandes conquistas.
O futebol também ensina sobre liderança
Muitos brasileiros torceram pela derrota da Argentina.
A rivalidade faz parte do futebol e sempre fará.
Mas, independentemente da preferência de cada torcedor, há algo que merece ser reconhecido: a Argentina construiu uma seleção competitiva porque acreditou em um projeto, preservou uma liderança e fez com que seus jogadores compartilhassem o mesmo propósito.
Nenhuma equipe vence apenas pelo talento.
Grandes conquistas nascem da soma entre liderança, planejamento, disciplina e espírito coletivo.
Talvez essa seja a principal lição que o futebol brasileiro precisa aprender.
Mais do que encontrar um novo craque, o Brasil precisa reencontrar uma identidade.

