Vírus Oropouche já infectou mais de 5 milhões no Brasil, sugere estudo
Autores alertam que estratégias de combate ao vetor, o mosquito-pólvora, devem ser diferentes das usadas contra o Aedes
SAUDEENTRETENIMENTOTECNOLOGIA
3/25/20264 min read


O recente surto do vírus Oropouche, ocorrido em 2023, chamou atenção no Brasil e em outros países da América Latina não só pela magnitude (mais de 30 mil casos registrados no território nacional), mas também pela primeira morte confirmada no país causada pela doença e pela rápida disseminação para todos os estados, deixando de se restringir à região amazônica.
Diante desse cenário, no início do ano, a OMS (Organização Mundial da Saúde) também demonstrou preocupação e fez um apelo para acelerar o desenvolvimento de ferramentas de prevenção e controle contra esse patógeno, até então quase desconhecido.
Dois estudos publicados hoje (24/03) nas revistas Nature Medicine e Nature Health comprovaram que o impacto do vírus Oropouche é muito maior do que o retratado nos dados oficiais.
Por meio de cálculos matemáticos, dados históricos e análise de sangue de hemocentros, os pesquisadores estimam que, desde 1960, o vírus já tenha infectado cerca de 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe. Só no Brasil, seriam aproximadamente 5,5 milhões de casos.
A doença, que provoca febre e sintomas semelhantes aos da dengue, pode evoluir para complicações graves, incluindo problemas neurológicos (meningite e meningoencefalite) e até microcefalia em casos de transmissão materno-fetal.
“Estamos diante de uma doença com magnitude muito maior do que se imaginava, o que requer mais atenção. Estimamos que um em cada mil diagnósticos da doença evolua para complicações graves, como doenças neurológicas, microcefalia, abortos e complicações hepáticas, o que eleva o nível de prioridade para saúde pública”, conta José Luiz Proença Módena, coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor dos estudos, que contam com apoio da FAPESP.
O trabalho também teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, da instituição filantrópica britânica Wellcome Trust e do Instituto Todos pela Saúde.
Manaus, epicentro da crise
Em Manaus (AM), a maior metrópole da região amazônica, estima-se que 300 mil pessoas tenham sido infectadas entre 2023 e 2024, quase 260 vezes mais que os casos confirmados. De acordo com os pesquisadores, a prevalência de anticorpos contra o vírus saltou de 11,4% em novembro de 2023 para 25,7% em novembro de 2024, indicando ampla disseminação da doença.
“A capital do Amazonas é uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes e considerada a porta de entrada para a região amazônica. A subnotificação impressionante ocorreu por vários fatores, principalmente pelo fato de o vírus ter circulado silenciosamente antes de atingir as bordas do centro urbano, com muitos casos sendo assintomáticos ou leves, e sem diagnóstico”, conta William de Souza, professor da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, que também assina o estudo.
Essa dinâmica ajuda a explicar a disseminação do vírus por todos os Estados brasileiros e países vizinhos, além de reforçar o cenário que motivou a OMS a emitir alerta internacional.
Já no caso de pacientes em regiões remotas da Amazônia, os pesquisadores destacam a dinâmica e a logística da região. “Pacientes em regiões remotas da Amazônia muitas vezes enfrentam tempos de viagem de mais de 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse silenciosamente até atingir a borda de um grande centro urbano”, afirma Souza.
Os pesquisadores detectaram que o vírus Oropouche está em circulação contínua, embora muitas vezes em níveis tão baixos que se tornam quase indetectáveis pelos sistemas de vigilância comuns. “No trabalho, identificamos duas grandes ondas de Oropouche na capital amazonense, uma na década de 1980 e a de 2023, que infectaram, cada uma, mais de 12% de sua população”, diz Módena.
A partir desse rastreamento, os pesquisadores também identificaram que indivíduos infectados na década de 1980 ainda eram capazes de neutralizar a linhagem viral recente. “Isso sugere uma proteção cruzada duradoura, capaz de orientar futuras estratégias de vacinação”, explica Souza.
Um vírus do mato
A reemergência do vírus Oropouche em 2023 confirmou sua expansão pelo país. O Estado do Espírito Santo apresentou a maior taxa acumulada, com 318 casos por 100 mil habitantes. Já a região Sudeste concentrou 57,9% das notificações, tornando-se o novo epicentro da doença.
Diferentemente de outras arboviroses mais conhecidas, ele é transmitido pelo mosquito-pólvora, porvinha ou maruim (Culicoides paraensis), o que faz com que a incidência da doença em áreas rurais seja 11 vezes maior do que nas cidades.
“Ao contrário do Aedes aegypti [mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya], que se reproduz em água parada, o maruim deposita seus ovos em solo úmido e rico em matéria orgânica. É um mosquito do mato, de áreas úmidas. Por isso, a predominância de casos em áreas rurais e não urbanas”, explica Souza.