Cultura, poder e território: o recado da Teia em Feira de Santana

A realização da III Teia Estadual dos Pontos de Cultura em Feira de Santana não foi apenas um evento cultural. Foi, acima de tudo, um gesto político. Um recado. Um movimento estratégico que ultrapassa o campo da arte e alcança o território, a economia, a formação social e, inevitavelmente, o cenário eleitoral.

Não há ingenuidade na escolha do lugar. Feira não é apenas a segunda maior cidade da Bahia. É um polo regional, uma encruzilhada econômica, cultural e política. Quem dialoga com Feira dialoga com o interior. Quem constrói presença aqui constrói capilaridade.

Por isso, a presença da ministra Margareth Menezes e de lideranças estaduais simboliza muito mais do que apoio à cultura. Representa o fortalecimento de uma agenda de interiorização do poder, de aproximação com territórios historicamente disputados e de consolidação de uma base social que vai além dos centros urbanos tradicionais.

Ao mesmo tempo, a participação do secretário municipal de Cultura, representando a gestão do prefeito José Ronaldo de Carvalho, demonstra que a pauta cultural deixou de ser periférica na gestão pública. Cultura hoje é estratégia. É desenvolvimento. É identidade. É disputa de narrativa.

E essa disputa não é abstrata.

Os chamados Pontos de Cultura formam redes. Conectam juventudes, periferias, comunidades tradicionais, artistas e educadores. São espaços de formação cidadã, geração de renda e mobilização social. Em um país marcado por desigualdades, esses espaços também se tornam ambientes de construção política — legítimos, necessários e cada vez mais influentes.

Ignorar isso é não compreender o Brasil contemporâneo.

Os investimentos anunciados, os editais, a ampliação de programas e a articulação com a economia criativa revelam que a cultura passa a ocupar o centro do debate sobre desenvolvimento. Não apenas como entretenimento, mas como vetor de emprego, empreendedorismo e inclusão.

Mas há uma questão essencial que precisa ser colocada com maturidade:
Qual será o papel das lideranças locais nesse novo cenário?

Feira de Santana vive um momento decisivo. Se por um lado o município pode se beneficiar de mais recursos, visibilidade e protagonismo cultural, por outro, corre o risco de assistir passivamente à construção de redes externas sem consolidar uma agenda própria, estruturada e estratégica.

O desafio está posto.

O poder público municipal, a iniciativa privada, o setor educacional e os agentes culturais precisam compreender que a cultura não é mais apenas agenda de eventos. É política pública estruturante. É formação de identidade. É desenvolvimento regional.

A Teia deixa um sinal claro: a Bahia está reorganizando sua presença no interior. E quem não entender essa movimentação ficará para trás.

Mais do que debates, oficinas e apresentações, o encontro deste fim de semana reposiciona Feira no mapa cultural e político do estado. A pergunta que permanece é simples e direta:

Feira de Santana será protagonista desse novo ciclo ou apenas cenário?

O futuro começa agora. E, como toda disputa estratégica, ele será construído por quem estiver disposto a enxergar além do palco.

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