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A perspectiva do racismo na visão de três professores negros da USP
 
 
É possível tornar a matemática, a computação e a estatística mais negras?   
 
 
 
 
Pare para pensar: ao longo de toda a sua vida escolar e acadêmica, quantos professores negros você teve? Mesmo que a gente não se conheça, eu sei que o número que virá da sua resposta não terá muitos dígitos. De acordo com uma pesquisa divulgada em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 60% da população brasileira é constituída por pessoas pardas e pretas. Apesar disso, esse número é pouco expressivo em cargos de poder e decisão, como nos ambientes acadêmicos, políticos, midiáticos e empresariais, por exemplo. 
 
No entanto, quando se analisam dados de violência e desigualdade, essa é a população mais vulnerável, alerta a Organização das Nações Unidas (ONU). As principais vítimas de mortes violentas no país são homens, jovens, negros e de baixa escolaridade revela o Atlas da Violência de 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre os 10% da população mais pobre do país, 76% são negros e, levando em conta a população mais rica (1% do total apenas), o número de negros cai para 17,4%, segundo o IBGE. 
 
Além disso, mais da metade da população carcerária, cerca de 61,6%, são pretos e pardos, diz o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen). Vale lembrar que o Brasil abriga a quarta maior população prisional do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, da China e da Rússia 
 
Já a Oxfam Brasil, uma organização não-governamental, estima que a igualdade salarial entre homens e mulheres será alcançada em 2047, mas essa equiparação entre pessoas negras e brancas só deve acontecer em 2089. 
 
Diante das evidências trazidas por essas estatísticas e da celebração do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, dá voz a três professores negros. São eles: Maristela dos Santos, que é da área de matemática aplicada; Katiane Conceição, do campo da estatística; e Edson Moreira, da computação. 
 
O sistema de cotas raciais é uma alternativa para equiparar as diferenças? 
 
Edson: Eu acredito que as cotas, tanto raciais, como sociais, são bastante inclusivas. Antes disso, os negros tinham diversas limitações para entrar no ambiente universitário, já que a maioria dessa população é pobre e a adesão tardia da USP ao sistema de política de cotas dificultou ainda mais esse acesso. Apesar disso, esse avanço nos possibilitou melhorias, mas ainda hoje a população negra tem dificuldade no ingresso à universidade. A meu ver, o sistema educacional transforma a nossa capacidade em conhecimento mensurável, e é isso que vai levar os estudantes para a universidade. Mas para fazer essa transformação o aluno precisa de um bom professor, de um ambiente adequado aos estudos, o que ainda é falho.

 
O fato de o Brasil ter se constituído sob uma sociedade escravagista tem algum impacto na atualidade? 
 
Katiane: A cota em si não é suficiente para resolver as desigualdades raciais, mas por que dizemos sim às cotas raciais? Porque o Estado tem culpa nessa desigualdade. As cotas são uma tentativa de recuperar as perdas que os negros tiveram desde a colonização. É reparação histórica. Após o processo de libertação dos escravos, muitos negros ficaram nas senzalas submissos aos senhores de engenho, pois não tinham outro lugar para trabalhar e garantir as condições para se alimentarem. Para ter uma vida melhor, qual foi a oportunidade que foi dada aos que não se submeteram a isso? Dessa forma, a cota racial deveria ter sido uma ferramenta de equiparação usada há muito tempo, mas agora que temos esse direito precisamos usá-lo para consertar os erros que foram cometidos lá atrás. Não é uma solução imediata e pode demorar séculos para essa correção, mas esse é um mecanismo temporário. A educação tem que começar na base porque não adianta o negro ingressar na universidade por meio da política de cotas e depois não ter condições de permanência.
 
Vocês percebem a existência do racismo no dia a dia? De que forma ele acontece? 
 
Maristela: Com certeza. Quantos super-heróis negros a gente conhece? São pouquíssimos. Hoje em dia, a história está começando a mudar, mas antigamente uma criança negra não tinha uma boneca do seu mesmo tom de pele para brincar. Temos que ter bons políticos negros, bons professores negros, bons empresários negros e eles precisam estar em evidência. Ver pessoas negras bem-sucedidas é um estímulo para as crianças se espelharem. Apesar disso, eu nunca senti na pele o racismo, mas isso não quer dizer que ele não exista. Em termos de capacidade intelectual, nós somos todos iguais, mas a população negra carece de educação básica de qualidade e, talvez, esse sim, seja o maior fator de desigualdade. 
 
Katiane: Não seria contraditório ter racismo na universidade, sendo que esse é um espaço de diálogo, de conhecimento, de pensamento crítico? Eu posso ter sofrido preconceito, mas eu jamais acho que aquela ação movida contra mim foi feita por conta da minha raça. Se uma pessoa não gosta de mim, ela pode ter os motivos que for, mas eu nunca vou associar isso ao meu tom de pele. Isso também não quer dizer que o racismo e o preconceito não existam. Eu até posso ter passado por situações discriminatórias, porém, não me lembro de ter acontecido comigo. Ter vindo de uma família pobre, negra e, agora, ser professora da melhor universidade do Brasil é muita superação. 
 
Edson: Existe o preconceito da sociedade, mas o que acontece bastante é a auto exclusão do negro. Se você pergunta para um adolescente negro e pobre por que ele não faz o vestibular da USP, ele fala que não tem dinheiro pra pagar. Então, eles acham que a USP é paga, que não está ao alcance deles, eles se auto excluem. Por isso, a sociedade precisa trabalhar com essas crianças de forma que estudar em uma universidade pública seja algo motivador.
 
A universidade pública, muitas vezes, é conhecida como um ambiente que enaltece a necessidade de mudanças e de políticas que combatam a discriminação contra a população negra. Vocês acreditam que as políticas públicas que existem hoje são suficientes para combater a desigualdade? 
 
Edson: Qualquer política pública que melhore todo o sistema de educação, desde a base, vai ajudar na igualdade porque todos terão as mesmas oportunidades. O acesso à universidade, por exemplo, tem um peso muito grande na nossa sociedade e, por isso, eu acredito que políticas inclusivas podem ajudar a transformar essa realidade. Precisamos de mais educação no sentido amplo da palavra. Trabalhar com a autoestima dessa criança negra, por exemplo, pode ser uma das soluções. 
 
Katiane: O problema é que a desigualdade não atinge só os negros porque, além disso, em grande maioria, essa população também é pobre. Então, precisamos primeiro melhorar a educação. Para mim, essa é a solução que pode dar uma vida melhor para essas pessoas e condições para competir em igualdade com qualquer outra. Além disso, as políticas públicas devem ir muito além de dar apenas acesso à educação. A gente também precisa pensar que essa família necessita de comida na mesa, de acesso a serviços básicos de saúde, o que é fundamental para melhorar a vida dessas pessoas. 
 
Pensando no contexto universitário, o racismo interfere no cotidiano de vocês? De que maneira? 
 
Maristela: Nós vivemos em um ambiente em que as ideias são muito valorizadas. Chega um momento em que você esquece a sua cor. Às vezes, me perguntam: naquela sala tem bastante mulheres? Eu falo assim: acho que eu não percebi isso ainda, acho que tem bastante aluno. Então, a gente fica tão empolgada em discutir ideias que esses fatores acabam passando despercebidos. 
 
Edson: Comigo é diferente. Quando eu entro em uma sala e vejo que tem mais de dois alunos negros eu já fico admirado. Acho que nunca tive mais do que dois alunos negros em uma sala de aula. 
 
Como professor, você acredita no seu poder transformador em relação ao combate do racismo? Como vocês trabalham esse assunto em sala de aula? 
 
Katiane: Eu não trabalho diretamente com o assunto racismo em sala de aula porque eu acredito que a minha função é formar bons cidadãos. Eu sempre dou o meu melhor, quero passar o conteúdo para os alunos de forma ética, quero que eles aprendam e se tornem excelentes profissionais, que saibam das suas responsabilidades, dos seus compromissos. E formando grandes cidadãos já é uma ótima contribuição para uma sociedade melhor. 
 
Edson: Acho interessante também que ações aconteçam fora da sala de aula, nos espaços decisórios, na comunicação com a sociedade, na difusão cultural, mostrando que a universidade contribui ativamente para o fim do preconceito.. 
 
Qual recado vocês passariam para as crianças negras? 
 
Maristela: Desde quando eu era criança, minha meta era ter uma carreira. Esse sempre foi o meu foco, então eu penso que a gente deve sempre seguir em frente. Talvez tenhamos passado por situações racistas, mas eu nunca deixei que isso me abalasse de alguma forma. Os alunos negros não devem achar que o fator da cor da pele possa ser um impeditivo para seguir qualquer carreira. Você vai encontrar diversos obstáculos, mas é fundamental acreditar no seu potencial e seguir em frente, sempre definindo suas metas, suas prioridades. 
 
Texto: Talissa Fávero - Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Fotos: Reinaldo Mizutan
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